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Vagaluminosidade

Atualizado: Mai 26


Crisálido era um inseto muito triste que desiludido, vagava cabisbaixo pela vida afora.

Num lindo dia de sol sob o céu azul, cruzou-lhe o caminho um tal de Clarêncio, inseto mais velho que observando-lhe a profunda tristeza estampada na face, ofereceu-lhe um livro e algumas boas palavras:

– Crisálido deixe de tristezas. Aconselhou Clarêncio, lançando um olhar que misturava ao mesmo tempo vigor e ternura – reflexo de uma alma amadurecida nas lutas da estrada.

– ah! Clarêncio sinto-me irrequieto e perdido, tomado de amargura inexplicável, como se trouxesse o inferno no coração, sem motivo aparente que conseguisse explicar o meu tormento!

– Olhe amigo – esclareceu o velho em tom fraternal -, devo alertá-lo de que a mente invigilante pode tornar-se uma ladra tão sorrateira quão impiedosa de nossa serenidade interior. À vista disso, para combater esse inimigo tão tenaz e capcioso é preciso desenvolver as habilidades que se encontram em nosso campo íntimo em estado potencial. E para a aquisição desses valores é imprescindível…

– Perdoe-me a sinceridade Clarêncio, falou o desiludido interrompendo o discurso do velho sábio: não há nada nos insetos além disso que vemos por aí; potencialidades? Por acaso não foi informado sobre o assassinato hediondo ocorrido dias atrás? Os insetos correm o mundo desalmados e sem salvação Clarêncio, não nos enganemos a respeito disso.

– E para a aquisição desses valores é imprescindível – continuou Clarêncio retomando o fio de pensamento calmamente -, buscar intimidade com a sabedoria pelo estudo, pela meditação. Veja Crisálido, tenho sim conhecimento do fato ocorrido, todavia, creio profundamente na origem divina de que procedem todos os seres da natureza inclusive o homem, aliás, alguém já disse uma vez que:

Na fonte eterna de amor A força em que Deus nos cria, Todos os vermes do charco Hão de ser anjos um dia…

– Você mesmo pode acender sua luz interna e ajudar a iluminar o mundo… leia o livro que te dei, medite sobre ele, sobre as verdades que ensina, e lembre-se de que florescer exige passar por todas as estações…

Falando assim se despediram. Ainda pode-se escutar a última consideração do angustiado: – ora, sejamos mais racionais! Depois de muitos dias passados os dois insetos tornaram a se encontrar, agora, entre as sombras da noite.

O inseto vetusto nem parecia o mesmo, pois, dele emanava tanta luz que mal se conseguia enxergá-lo.

Foi quando aquele ser descontente e desencantado com a própria vida percebeu que sendo também um vagalume era capaz de acender a própria luz.


Conheça o autor


Antonio Carlos Tarquínio é Mestre e Doutor em Philosophía pela PUC -SP.


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